São Paulo: Ciclo resgata o cineasta Louis Malle

Jeanne Moreau gosta de contar que viveu o maior desafio de sua carreira na famosa cena de Os Amantes, de 1958, em que Jean-Marc Bory desliza sobre seu corpo, desaparece da imagem e o diretor Louis Malle concentra a câmera no seu rosto em êxtase.

Compartilhar – Luiz Carlos Merten – O Estado de S.Paulo – 07.11.12 2h 07

Evento será realizado no CCBB e no Cinusp, em São Paulo, até o dia 23 deste mês

Por causa da cena de sexo oral, o Vaticano tentou interditar a exibição do filme no Festival de Veneza e chegou a ameaçar o autor e sua estrela de excomunhão.

Jeanne vivia, na época, com Malle. Haviam se apaixonado durante a filmagem de Ascensor para o Cadafalso, um ano antes. Seu dilema era o seguinte – ela chegou a pensar em fazer a cena mal. Como? Tinha certeza de que se simulasse um orgasmo pleno perante a equipe, por mais fake que fosse a filmagem, Malle não agüentaria e a união iria encerrar-se.

A quem servir – ao companheiro ou à personagem?

Ela optou pela segunda. Estava certa. Malle terminou o affair imediatamente, embora não no mesmo dia. Permaneceram amigos, e Jeanne terminou trabalhando com ele em Trinta Anos Esta Noite e Viva Maria!.

Malle teria completado 80 anos em 30 de outubro. Nasceu em 1932, morreu em 23 de novembro de 1995, há quase 17 anos. Quando o câncer o vitimou, ele havia acabado de inventar uma nova forma de diálogo entre cinema e teatro com Tio Vânia em Nova York, de 1994. Foi um fecho bem mais admirável para sua carreira do que teria sido Perdas e Danos, baseado no livro de Josephine Hart, em 1992. Malle trabalhava na biografia de Marlene Dietrich. Queria contar, na tela, a história da estrela que desafiava os códigos de Hollywood com sua ambivalência sexual e foi uma batalhadora contra o nazismo.

Na verdade, Malle e o roteirista John Guare se propuseram um desafio e tanto – queriam concentrar não apenas a vida da mítica Marlene, mas sua tempestuosa relação amorosa e artística com o diretor Josef Von Sternberg, num único dia de 1934, quando ambos realizavam A Imperatriz Galante em Hollywood.

Malle perante os mitos – herdeiro de uma família de industriais, ele foi contemporâneo da nouvelle vague, mas qualquer tentativa para enquadrá-lo no movimento seria forçada.

Sua trajetória se fez paralela ou à margem da nova onda. Quando se iniciou, e imediatamente começou a coletar prêmios, talvez tenha sido a inveja que levou alguns nova-ondistas a defini-lo como cineasta diletante.

Era bem mais que isso e adquiriu a fama de cineasta do escândalo – o sexo em Os Amantes; o suicídio em Trinta Anos Esta Noite, que adaptou de Drieu la Rochelle; o incesto em Sopro no Coração; o nazismo em Lacombe Lucien e Adeus, Meninos; a prostituição infantil em Pretty Baby.

No total, Malle fez 21 filmes, entre ficções e documentários, longas e curtas – o episódio William Wilson de Três Histórias Extraordinárias, baseado em Edgar Allan Poe.

Já tinha uma obra sólida, senão exatamente extensa, quando fez o documentário Calcutá, seguido de Índia Fantasma – Reflexões Sobre Uma Viagem, em 1969.

Ele próprio situava aí o verdadeiro início de sua carreira. O contato com a miséria da Índia o teria feito encarar o mundo de outra maneira. O problema da pobreza nunca é só social, pensava. Há sempre um componente mais íntimo, intrínseco às pessoas, como percebeu ao encarar o fatalismo místico dos indianos.

Seguram-se o em parte autobiográfico O Sopro no Coração, em que encarou o desejo por sua mãe e ela, Lea Massari, é compassiva com o filho que, na ficção, está doente e pode até morrer, e na sequência a provocação de Lacombe Lucien.

O filme trata de um tema tabu, o colaboracionismo dos franceses durante a 2.ª Grande Guerra.

O colaboracionista de Malle é um garoto, um jovem touro cheio de energia. Rejeitado pela resistência, adere ao nazismo, mas se envolve com a garota judia.

Não é a ideologia que o move – poucos filmes analisam de forma tão densa e funda o tema da alienação.

O bom de uma programação extensa como essa – que também terá debates – é a oportunidade que oferece para o espectador analisar e relacionar os filmes, e também avaliar/desfrutar cenas que valem sozinhas como aulas de cinema.

Há um momento de Atlantic City em que o velho gângster, interpretado por Burt Lancaster, espia a vizinha e vê quando Susan Saradon faz sua higiene, passando suco de limão nas axilas.

Mesmo um filme que não é tão bom, como Perdas e Danos, tem uma cenas fulgurante – quando Miranda Richardson rasga a blusa e expões os seios para o marido (Jeremy Irons) que a desprezou e iniciou uma relação com a nora (Juliette Binoche).

O fato é duplamente chocante, porque o jovem não vai resistir. Mata-se e a mãe, qual leoa ferida, perde tudo, o marido e o filho. Malle desfrutou de prestígio quando vivia.

Hoje, com o distanciamento que o tempo proporciona, não há exagero nenhum em lhe colar uma etiqueta – a de grande diretor, um dos maiores da França (e do mundo, já que levou carreira internacional).

Vídeo trilher Viva Maria: http://youtu.be/FdU2VKZpGd0

LOUIS MALLE

CCBB. Rua Álvares Penteado, 112, 3113-3651. R$ 4. Até 25/11.

Cinusp. Rua do Anfiteatro, 181, tel. 3091-3540. Grátis. Até 23/11.

Luiz Carlos Merten

O Estado de S.Paulo

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