Brasil Futebol: Tadeu Oliveira, o intermediador e o empresário em meio aos olheiros

Na engrenagem do futebol, o empresário representa o jogador numa ponta do negócio; no outro extremo, está o clube. Mas, no meio dessa rede, há a figura do intermediador. Se o clube precisa de um atacante, por exemplo, ele pode recorrer a empresários conhecidos que, por sua vez, acionam sua malha de outros agentes, até no Exterior.

Compartilhar – Jones Lopes da Silva e Paulo Germano – Zero Hora – Porto Alegre – Esportes – 12/11/2012 | 06h07

Em resumo, seu trabalho consiste em vasculhar a mercadoria para oferecê-la ao comprador. Quem traz o jogador ao clube é o intermediador. Cada um dos personagens ganha sua parte. Veja a história de quem já intermediou a vinda do zagueiro Juan, do meia D’Alessandro e do centroavante Maxi López.

Funciona assim: o empresário Tadeu Oliveira espalha meia dúzia de olheiros pelo país — e coloca mais um circulando no Paraguai, no Uruguai e na Argentina — para acompanhar campeonatos estaduais, torneios de categorias de base, jogos da série A, B e C do Brasileirão.

São 400 partidas vigiadas por ano.

O jogador nem sabe que há um olheiro por ali. Mas, se jogar bonito, mesmo sem saber, terá seu nome incluído em um banco de dados com 1,5 mil atletas.

— Quando um clube precisa de um jogador, não importa a posição, tenho bastante gente para recomendar — garante Tadeu, 64 anos, enquanto apresenta sua mansão com um Porsche Cayenne e um BMW X5 na garagem, além de uma lancha Phanton de 26 pés atracada em seu píer particular à beira do Guaíba, em Porto Alegre.

Boa parte desse patrimônio Tadeu adquiriu como intermediador — que é um empresário contratado pelo clube apenas para negociar a transferência de um atleta.

Após 19 anos no mercado, ele agora se permite dar prioridade à “qualidade de vida”, o que inclui praia na própria casa e jogos de futevôlei no fim de semana.

Em resumo, seu trabalho é vasculhar mercadoria para oferecê-la ao comprador. Ao perceber que um clube necessita, por exemplo, de um volante espadaúdo e marcador, Tadeu Oliveira vai atrás de jogadores com esse perfil na sua relação de nomes.

— O trabalho do intermediador é criar situações para que a transferência ocorra — explica ele, que já comandou 50 transações só em 2012, conforme calcula o filho Tadeu Oliveira Junior, 30 anos, seu braço-direito na empresa.

Um exemplo prático: na metade deste ano, o Inter queria um zagueiro. Tadeu sabia que o contrato de Juan com a Roma, da Itália, terminaria em seguida.

Não foi o Inter que procurou Juan — foi Tadeu, prevendo uma boa comissão em caso de negócio fechado, que ofereceu seus serviços ao clube para trazer o jogador.

Após semanas de negociações, viagens à Itália, conversas do intermediador com o zagueiro — e do intermediador com o empresário do zagueiro —, Juan desembarcou em Porto Alegre com um salário acertado de R$ 350 mil, valor que nem Tadeu nem o Inter confirmam. O empresário gaúcho faturou entre 5% e 10% do contrato inteiro.

Mas Tadeu também administra a carreira de jogadores: o volante Tinga, atualmente no Cruzeiro, é o seu principal cliente.

Não é o caso de Paulo Amorim, o Português, que trabalha exclusivamente com intermediação — ele trouxe o argentino Bertoglio para o Grêmio este ano:

— Já empresariei jogador, mas é muita incomodação. Se o cara está na concentração, mas a mulher fica doente em casa, lá vai o empresário arranjar remédio às três da manhã. Tem que buscar família no aeroporto de madrugada, é muito chato.

Português entrou no mercado no final dos anos 1970, quando era gandula do Inter.

Abriu um restaurante, os atletas passaram a frequentá-lo, admiravam seu tino para contabilidade. Então Ademir Alcântara, Balalo, Norton e Norberto lhe pediram que os representasse na renovação de contrato.

Mas Português foi enriquecer em 1991, quando embolsou US$ 200 mil ao intermediar a transferência de Christian, centroavante do Inter, para o Marítimo, de Portugal. Desde lá, mantém restaurantes simples, com cara de boteco, e negócios que lhe renderam carrões e cobertura.

— Todo dia de manhã, telefono para os clubes perguntando se precisam de jogador. E ligo para os atletas, tenho uns 300 na minha agenda, para saber se o contrato está terminando, se estão felizes, se procuram outro clube — conta Português.

Mas por que o clube precisa do intermediador?

— Porque o intermediador está sempre na frente, vive o mercado 24 horas por dia, tem boas relações com o outro lado – responde o empresário Fernando Otto, que se projetou após trazer D’Alessandro para o Inter, em 2008, por R$ 12,5 milhões.

Calcula-se que ele tenha embolsado pelo menos R$ 400 mil com a transferência.

No ano seguinte, propôs intermediar a venda do meia Giuliano — na época uma promessa do Paraná Clube — para o Inter por módicos R$ 1,5 milhão.

— Dois anos depois, o Inter vendeu Giuliano por 10 milhões de euros (R$ 26 milhões), e não ganhei nada.

Talvez eu devesse ter negociado uma comissão em uma venda futura do atleta — reflete hoje Fernando Otto.

Mais tarde, Otto e o agente Rogério Braun trouxeram o centroavante Maxi López para o Grêmio e, com a multinacional inglesa Base Soccer, trabalharam na ida de Sandro ao Tottenham, por 10 milhões de euros. Esse negócio envolveu cinco intermediários. Dividiram cerca de 800 mil euros de comissão.

Todo esse vaivém de dinheiro, que envolve transação com dirigentes, com jogadores, com empresários desse e daquele país, faz o próprio Tadeu Oliveira admitir:

— Falam mal dos empresários, mas nosso negócio é um pouco obscuro mesmo. Não somos santos, mas também não somos o diabo.

jones.silva@zerohora.com.br

paulo.germano@zerohora.com.br

ZHesportes

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