Brasil: Luiz Gonzaga (1912-2012): o homem que descortinou o nordeste

Por Milton Ribeiro – sul21 –Porto Alegre – Compartilhar

 Nascido há exatos cem anos, Luiz Gonzaga foi o artista que trouxe do nordeste para o resto do país não apenas o baião, o forró e o maxixe; trouxe também ao conhecimento popular a vida do sertão com suas festas, geografia, religiosidade e ritmos.

E sua pobreza, injustiças e aridez.

A importância de Gonzaga, o Rei do Baião, foi notável para a fixação da identidade nordestina, pois, mesmo construindo uma carreira musical no sudeste, Luiz Gonzaga manteve-se fiel a suas origens.

Pernambucano de Exu, nascido numa sexta-feira, 13 de dezembro de 1912, Luiz Gonzaga elevou à qualidade de gênero vários ritmos nordestinos que conseguiram penetrar à princípio nas rádios do Rio de Janeiro, centro de uma indústria fonográfica em florescente naquela época, e depois em todo — ou quase todo — o Brasil.

A surra

Luiz Gonzaga era adolescente quando começou a se apresentar em bailes, acompanhando seu pai Januário. Mas então apaixonou-se por Nazarena. O pai da moça, um coronel bem típico do nordeste, adornado com nome que não nega o fato – Raimundo Deolindo – ameaçou-o: ou se afastava de Nazarena ou morria.

Mesmo assim, o jovem casal conseguia dar um jeitinho de namorar, mas isso só até os pais de Gonzaga aplicarem-lhe uma surra por desobedecer ao coronel.

A resposta de Gonzaga foi ingressar no Exército como corneteiro. A farda fez com que ele viajasse por boa parte do Brasil e, em cada canto, foi conhecendo músicos que depois trabalhariam com ele.

Tudo começou no programa de rádio de Ary Barroso

Em 1939, aos 27 anos, deu baixa do Exército. Estava decidido a voltar-se inteiramente à música. Recomeçou tocando acordeão na zona do meretrício do Rio de Janeiro.

Por incrível que pareça, seu repertório era de músicas estrangeiras, cujas melodias solava a fim de embalar os efêmeros amores. Durou pouco esta época, pois, em 1941, foi ao programa de rádio de Ary Barroso para arriscar-se com algo de sua autoria.

Foi aplaudido entusiasticamente por Vira e Mexe, um tema bem nordestino.

Logo assinou contrato com a gravadora RCA Victor, pela qual lançou mais de 50 músicas, todas instrumentais e de sabor regional, que agradaram a população nordestina da cidade.

Seu vestuário ainda eram paletó e gravata.

Foi por influência do acordeonista catarinense Pedro Raimundo – que apresentava-se vestido com uma espécie de pilcha – que Luiz Gonzaga resolveu utilizar indumentária de vaqueiro em seus shows.

Começa o carrossel de emoções

Em 1945, gravou sua primeira música como cantor, Dança Mariquinha. No mesmo ano, iniciou uma relação amorosa com a cantora Odaléia Guedes dos Santos.

Ela já estava grávida quando se apaixonaram. Gonzaga evitou que o menino Luiz Gonzaga do Nascimento Júnior não tivesse um pai na Certidão de Nascimento.

A relação com Odaléia (Léia) – péssima, com muitas brigas e ciúmes – durou dois anos até Gonzaga abandonar mulher e filho.

Gonzaga sempre enviou dinheiro para Léia a fim de que ela se sustentasse e ao menino.

Em 1946, retornou pela primeira vez a Exu, onde teve um emocionante reencontro com os pais. O fato foi narrado na canção Respeita Januário, escrita em parceria com o advogado cearense Humberto Teixeira.

Com o mesmo Teixeira, compôs sua canção-símbolo, Asa Branca, em 1947.

Em 1948, casou-se com a professora Helena Cavalcanti, que o acompanhou pelo resto da vida e com a qual não teve filhos naturais.

Adotaram uma menina chamada Rosa. Porém, no mesmo ano, Léia faleceu e Luiz Gonzaga Júnior, o Gonzaguinha, ficou órfão.

Tinha menos de três anos de idade. Gonzaga quis levar o menino para sua casa, mas Helena não aprovou a idéia. Afinal, o menino era filho de “estranhos”.

Assim, Gonzaguinha foi morar com os padrinhos. A decisão gerou enorme ressentimento no menino, que aprendeu e costumava tocar violão nos becos do Morro de São Carlos, no Rio de Janeiro.

Toda vez que pai e filho se viam acabavam brigando. Gonzaga temia pelo futuro da criança — que, segundo ele, só andava com os malandros do morro.

Mais emoções

A madrinha tentava fazer com que pai e filho morassem juntos, mas Helena os impedia sistematicamente. Ela também procurava evitar que o pai visitasse o filho e espalhava que Gonzaga era estéril, fato sempre desmentido por ele, que não queria que Gonzaguinha descobrisse a adoção.

Esta novela mexicana não termina aqui e colocamos nosso foco nela porque Gonzaguinha se tornaria um nome fundamental da MPB anos depois. Sigamos, pois, nosso drama.

Também Gonzaguinha não queria morar com o pai por detestar Helena. Acabou num internato. Porém, aos 14 anos, contraiu tuberculose. Então, Luiz levou-o para morar consigo.

A situação tornou-se insustentável: Helena destratava o garoto e Luiz era autoritário com ele — só com ele, pois obedecia à mulher — e, recuperado, Gonzaguinha retornou ao internato.

Findo o período colegial, já universitário, o filho tornou-se alcoolista… O drama só terminou quando Gonzaguinha começou a compor e cantar. E apenas em 1979, quando Gonzaguinha já tinha 34 anos, é que houve a reconciliação completa entre pai e filho.

Na época, Gonzaguinha fazia mais sucesso do que o pai.

Seu legado pode ser ouvido em Dominguinhos, Alceu Valença, Elba Ramalho, Fagner, Gilberto Gil e outros

A importância de Gonzagão

Luiz Gonzaga foi o cantor que mais vendeu discos no Brasil durante as décadas de 40 e 50. A RCA trabalhava apenas em seus lançamentos durante a época do Natal. Presente de verdade era dar um disco de Gonzaga para o amigo. Ele gravou mais de 200 discos 78 rpm. Certamente, não obteve o mesmo sucesso no sul do Brasil, mas o restante do país foi varrido por sua música. Gonzaga foi o primeiro artista a fazer turnês nacionais, pois suas canções não eram ouvidas somente no nordeste e pelos emigrantes nordestinos do sudeste.

Como legado, ele nos deixou o baião, o xote e toadas que influenciaram artistas como Dominguinhos, Alceu Valença, Elba Ramalho, Fagner, Gilberto Gil e outros. Asa Branca, Dezessete e Setecentos, Dança Mariquinha, A dança da moda, Assum preto, O xote das meninas, Pau de arara, Qui nem jiló, Vozes da seca, Respeita Januário, Légua Tirana, Sabiá, Riacho do Navio e muitas outras fizeram enorme sucesso.

O Rei do Baião faleceu em 1989, aos 76 anos.

O filho Gonzaguinha morreu precocemente dois anos depois, aos 45, num acidente automobilístico.

Neste ano, em homenagem ao centenário, foi lançado o filme Gonzaga – de Pai para Filho.

A obra retrata a difícil relação que resumimos. Gonzaga foi esquecido? Não parece. Nas primeiras três semanas de exibição, o filme já tinha sido visto por 1 milhão de espectadores.

Compartilhar – Milton Ribeiro – sul21 – Porto Alegre – Música/Cinema – 13/12/12 | 06:00

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