Brasil: Jobim desconhecido

Relançamento de ‘The Adventurers’ mostra o outro lado do compositor

por Antonio Gonçalves Filho – O Estado de S. Paulo – Compartilhar

As trilhas sonoras compostas pelo maestro Antonio Carlos Jobim (1927-1994) para cinema, teatro e televisão somam duas dúzias de títulos, dos quais pelo menos 80% estão fora de catálogo.

 Um verdadeiro escândalo quando se compara o tratamento dedicado fora do Brasil a outros compositores, como o italiano Ennio Morricone, que já compôs mais de 500 trilhas para o cinema, das quais 170 delas ainda em catálogo pelo selo italiano GDM,

criado em 1970 – não considerando

as demais gravadoras.

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 Poucos conhecem, por exemplo, a única trilha composta por Jobim para um filme americano, The Adventurers (O Mundo dos Aventureiros, 1970), da qual dois temas – Children’s Game e Dax & Amparo- seriam mais tarde transformados, respectivamente, nas populares Chovendo na Roseira e Olha Maria, além de Sue Ann, derivada do tema Bed of Flowers for Sue Ann.

A gravadora americana Varèse Sarabande decidiu ressuscitar agora a trilha, mas não a original. Acaba de lançar nos EUA uma nova edição da música do ‘trashy’ The Adventurers com arranjos do maestro norte-americano Quincy Jones e a orquestra de Ray Brown, conduzida pelo próprio.

Registrado há 42 anos, na mesma época da trilha sonora original, que tinha arranjos de Eumir Deodato, o disco de Quincy Jones é uma estridente releitura para uma big band de jazz das suaves composições de Jobim.

Em outras palavras, uma subversão estilosa de uma trilha delicada, lançada originalmente pela Paramount, coprodutora do filme com a Avco Embassy. A original trazia 13 faixas, quatro a mais que o disco de Quincy Jones, que usa o nome de Jobim para vender um produto falsificado: a faixa seis (Coming and Going), por exemplo, é um interminável orgasmo da atriz Sally Kellerman (popular, na época, por causa da erótica major Hot Lips, de Mash) que faz Jane Birkin parecer uma freira em Je t’Aime Moi Non Plus.

Não é um tema composto por Jobim, mas por Ray Brown, provavelmente inspirado nas acrobacias sexuais do ator iugoslavo Bekim Fehmiu (1936-2010) no filme, dirigido pelo inglês Lewis Gilbert e eleito como um dos dez piores da história do cinema.

Tom Jobim estava no auge de sua popularidade nos EUA (tinha gravado com Frank Sinatra dois anos antes) quando aceitou assinar a música para a superprodução, baseada num romance popular de Harold Robbins.

O filme foi abjurado até por seu diretor, que o considera um desastre monumental (apesar da fotografia de Claude Renoir, o filho do pintor, e um elenco all star, de Candice Bergen a Olivia de Havilland, passando por Ernest Borgnine e Charles Aznavour). Vagamente inspirado na vida do playboy e diplomata dominicano Porfirio Rubirosa.

O Mundo dos Aventureiros, ambientando num país fictício da América do Sul, Corteguay, é um típico produto americano que reduz todos os países do continente a repúblicas de bananas, em que os ditadores se sucedem no mesmo ritmo das aventuras sexuais do protagonista, um gigolô disposto a vingar o pai, assassinado pelo regime de um déspota.

O filme não merece a bela trilha que tem. Paulo Jobim, filho do compositor e diretor do Instituto Tom Jobim, desconfia que o pai ignorava o roteiro (de Lewis Gilbert e Michael Hastings). Lamenta que a Paramount não tenha reeditado a trilha original em CD e revela ter comprado há anos para o instituto a versão de Quincy Jones, num leilão pela internet.

O fato é que o compositor não repetiu a experiência nos EUA, onde gravou ao lado de maestros hoje esquecidos, como o vibrafonista Gary McFarland (1933-1971), que morreu envenenado. Em seu disco Soft Samba (1964), relançado em CD por um selo japonês numa edição para colecionadores, Jobim toca ao violão canções dos Beatles ao lado de Kenny Burrell, além de temas de filmes de outros autores (A Americanização de Emily, The Love Goddess e Mondo Cane).

As gravadoras estrangeiras lembram mais de Jobim que as brasileiras. É possível encontrar nas lojas importadoras – ainda que com alguma dificuldade – a trilha que o maestro carioca assinou para Orfeu do Carnaval (Black Orpheus), de Marcel Camus. Seu marco zero no cinema, o disco só saiu em 1959 por iniciativa do pianista e produtor de jazz holandês Cees Schrama, sendo relançado pela Verve 40 anos depois.

As gravadoras brasileiras não se interessam nem mesmo em relançar trilhas hoje clássicas, como as dos filmes Garota de Ipanema (Universal, 1967), Gabriela (RCA, 1983) e O Tempo e o Vento (Som Livre, 2003).

Quando muito, mantêm em catálogo discos em que Jobim inseriu temas compostos para filmes – como a premiada Crônica da Casa Assassinada (quatro deles no CD Matita Perê) e Os Aventureiros (duas músicas no CD Stone Flower).

“Muitas de suas trilhas nem chegaram a ser lançadas”, diz Paulo Jobim, que trabalhou como arranjador ao lado do pai em algumas delas (A Menina do Lado, Brasa Adormecida, Fonte da Saudade). Uma das mais belas, Porto das Caixas (1962), filme de estréia de Paulo Cesar Saraceni (com roteiro dele e Lúcio Cardoso), traz duas obras-primas do maestro (Derradeira Primavera e Valsa do Porto das Caixas), que nunca mais serão ouvidas em sua forma original.

“A fita matriz está perdida, mas a série Revivendo conseguiu resgatar as duas canções citadas do próprio filme, embora o som venha misturado aos diálogos do filme.”

Jobim, que se habituou com os arranjos do alemão Claus Ogerman e Eumir Deodato quando começou a gravar nos EUA, não assina a orquestração de boa parte das trilhas que fez (a de Gabriela foi feita por Oscar Castro Neves, a de Garota de Ipanema, por Luiz Eça, e Sagarana teve como arranjador Dori Caymmi).

A (má) experiência internacional de Os Aventureiros deve ter marcado o maestro, que preferiu apostar em diretores brasileiros amigos, como Paulo Cesar Saraceni e Pedro de Moraes (filho de Vinicius), que dirigiu o curto Tempo de Mar em 1971. “É um filme meio abstrato passado em Arraial do Cabo com imagens submarinas”, define Paulo Jobim, lembrando que seu tema principal está em Matita Perê.

Os ouvintes não tiveram a mesma sorte com outras trilhas de produções internacionais assinadas por Jobim. Suas músicas foram usadas em Erotique, filme em episódios dirigido por Ana Maria Magalhães, Clara Law e Lizzie Borden.

Para o documentarista dinamarquês Jorgen Leth ele compôs a trilha de seu filme Man at Play.

Há todo um Jobim desconhecido pronto para ser redescoberto pelas gravadoras. Não seria má idéia reunir numa caixa todas as suas trilhas.

Compartilhar – Antonio Gonçalves Filho – O Estado de S.Paulo – Cultura – Jobim – 22 de dezembro de 2012 | 7h 00

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