Brasil, Helio Fernandes: O 9 de Julho de 1932

O 9 de Julho de 1932, apelidado de ‘Revolução Constitucionalista’, não passou de farsa, fraude, falsificação. Tentativa de preservação da elite paulista, os enriquecidos ‘barões do café’.

Helio Fernandes* – Tribuna da Imprensa – Compartilhar

Anteontem, assisti no Canal 113 da Net, documentário sobre o assunto. Informaram que o canal é “especializado em documentários históricos”, achei ótimo, será uma nova forma de debate e polemica. Mas precisam ter mais cuidado, desfiguraram ou omitiram fatos, mutilaram a interpretação, a conclusão só poderia se transformar num equivoco total, apesar de histórico. Vargas, por Chico Caruso

Nem perceberam que esse 1932 começa em 1889, quando Rui Barbosa toma posse como Ministro da Fazenda. Como sempre falando de improviso, fez este registro, de grande repercussão: “O Brasil tem que deixar imediatamente de ser um país essencialmente agrícola.

“A Revolução Industrial da Inglaterra (Manchester) já tem mais de 100 anos, e nem tomamos conhecimento”.

Esse “essencialmente agrícola” atordoou os paulistas, que viviam do café. Ficaram apavorados, mas não tinham coragem suficiente para enfrentar Rui Barbosa.

Deixaram passar algum tempo, como já estava convocada (indiretamente) a Constituinte de 13 de novembro de 1890, sugeriram que Rui fosse aos EUA, estudar a Constituição deles, promulgada em 1788.

Genial mas com excesso de ingenuidade, Rui aceitou. Já era candidato a senador e estava redigindo o anteprojeto da primeira Constituição da República.

Voltou, se elegeu e por unanimidade indicado relator da Constituição, que seria promulgada em 25 de fevereiro de 1891.

Rui foi derrotado em tudo na hora, ou superado mais tarde. Queria presidente e vice eleitos diretamente.

Deodoro e Floriano se “elegeram” sem votos, sem urnas, sem povo. Não conseguiu encaminhar a industrialização do país. Ganhou a idéia de senadores serem 2 por estado, 6 anos de mandato, como nos EUA. Mais tarde aumentaram para 3 por estado, com duração de 8 anos em vez de 6.

A “QUEBRA” DA BOLSA DE WALL STREET
EM 1929 ARRUINOU OS “BARÕES DO CAFÉ”

Enriqueceram desvairadamente, só eram chamados de “paulistas de 400 anos”, de acordo com discurso de Alcântara Machado na Câmara, em 1924.

Só que não sabiam que a tragédia estava próxima. 5 anos depois desse discurso, Wall Street explodia, o mundo mergulhava na maior recessão.

Antes disso, o Brasil vendia 96 por cento de todo o café bebido pelo mundo. São Paulo plantava, colhia, exportava 92 por cento desse café.

Os outros 4 por cento eram divididos entre o Estado do Rio e o Espírito Santo. Desesperados, os paulistas não sabiam o que fazer.

Para complicar, veio a Revolução (?) de 30, o presidente, que era paulista, foi derrubado.

São Paulo, arruinado econômica e financeiramente, se viu desmoronado politicamente.

Vargas assumiu como chefe do Governo Provisório, não se incomodou nem se aborreceu, sabia que não ia passar o cargo a ninguém. Derrotado em março de 1930 pelo paulista Julio Prestes, se vingou, não ligava para eles.

Foi nomeando interventores para São Paulo, que duravam pouco tempo.

Incluindo o Tenente João Alberto, que faria longuíssima carreira de mais de 40 anos.

Tentou mudar tudo, não conseguiu, jogou os paulistas no desespero de tentarem enfrentar as poderosas “Forças Legalistas”, como eram chamadas.

Derrotados facilmente por Vargas, este espertíssimo, resolveu convocar a Constituinte para maio de 1933.

Essa Constituinte deveria promulgar a Constituição e, em 1934, realizar a primeira eleição verdadeiramente direta e democrática. Nessa eleição, as mulheres votariam pela primeira vez para presidente. O Partido Comunista, que estava na legalidade, teria candidato, em vez do Partido Republicano único, várias legendas.

Só que antes, Vargas, matreiramente, criou os deputados sem votos, chamados de “pelegos”, trabalhadores e patronais. Com isso, Vargas ficou com mais de um terço da Constituinte, o resto arranjou facilmente, foi eleito indiretamente, transferiu a eleição direta para 1938.

Foi a grande frustração nacional. Mas os paulistas não se manifestaram, não protestaram, ao contrario, aceitaram e conversaram com Vargas.

Sem demorar muito, o “indireto” nomeou interventor em São Paulo o líder da elite, genro do principal incentivador do “golpe” de 1932. Nome desse interventor? Armando Sales de Oliveira.

Em janeiro de 1937, se lançou candidato à sucessão de Vargas. Este chamou Benedito Valadares (interventor em Minas), mandou que lançasse como candidato à sua sucessão, José Américo de Almeida. Este não podia aceitar, mas aceitou. (No início de 1945, se vingou , deu entrevista ao Correio da Manhã, assinada por Carlos Lacerda, liquidando a censura).

Com dois candidatos à sua sucessão, em 10 de novembro de 1937 Vargas implantou o Estado Novo, ficou no Poder até 29 de outubro de 1945. Nesse dia exagerou, nomeou seu desmoralizado irmão Beijo para chefe de Polícia do Distrito Federal. No mesmo dia foi derrubado.

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PS – Mas como não houve cassação nem inelegibilidade, todos voltaram em 2 de dezembro do mesmo ano, apenas 33 dias depois.

PS2 – O “documentário histórico” do Canal 113 não cita nada disso. E principalmente não explica que a “insatisfação” da elite paulista levou à “insatisfação” do Brasil inteiro, que suportou uma ditadura de 15 anos.

*Helio Fernandes é diretor da Tribuna da Imprensa

Compartilhar – Helio Fernandes – Tribuna da Imprensa – Repassando a história – sábado, 19 de janeiro de 2013 – 05:55

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